Delhi - Jaipur : lições de vida em 5 horas

26.4.18

O nosso comboio partia da estação de Old Delhi e os bilhetes tinham sido comprados ainda em Portugal via Internet, através de um site confuso em que apareciam listas de comboios que não tinham fim, horários que nos pareciam de outro planeta e um sistema de quotas com o qual não estávamos familiarizados. Por curiosidade, sabem quantas pessoas viajam em média, por dia, no sistema de comboios indianos: 23 milhões! São 2 x Portugal e mais um bocadinho.  Por tudo isto e por ser a nossa primeira viagem de comboio, íamos às escuras.



Decidimos chegar um pouco mais cedo para "apalpar terreno" e assim que o tuk tuk nos deixou em frente à estação sentimo-nos pequeninos. Estava calor, havia bastante gente à entrada, algumas pessoas a deambular de um lado para o outro da estação e nós éramos os únicos não-locais. A dimensão da estação era grande, não fazíamos ideia se devíamos ir mais para a frente ou mais para trás, onde seriam as carruagens dos nossos bilhetes, se haviam sequer bilhetes e como funcionava tudo. Algum tempo depois, juntaram-se a nós mais dois turistas, também eles a caminho de Jaipur e posteriormente, o comboio que partiria dali andou alguns metros para a frente para se colocar na posição de saída. Foi o caos. Do nada, começaram a vir pessoas de todos os lados, a empurrar-se e a trepar por cima umas das outras, para garantir o seu lugar no comboio. Os mesmos indianos que não buzinavam nas estradas, que se organizavam no caos do trânsito sem ripostar, gritavam uns com os outros, puxavam-se e empurravam-se como se da entrada naquele comboio dependesse a própria vida.
Eu fiquei a ver aquilo tudo petrificada, sem querer acreditar muito bem no que via e sem saber como faria para entrar com o Sebastião. Descobrimos um pouco mais tarde que os nossos bilhetes eram para outra carruagem, bem mais calma, onde viajámos com outra família indiana e conversámos sobre o país, a pobreza, a vida, a ligação de Portugal à Índia e as diferenças entre os dois países.


A viagem de comboio de Delhi para Jaipur foi também a mais impressionante que fizemos. O comboio andava devagar porque ia abrindo caminho por entre pequenos aglomerados onde viviam pessoas nas mais incríveis condições de pobreza, lado a lado com as linhas de comboio e lixeiras a céu aberto. É quase impossível fazer outra coisa nesta viagem que não seja olhar e estar sucessivamente a levar com o embate daquilo tudo. São horas duras mas que se configuram numa lição de vida. Não há paisagens bonitas, não há o verde do Sul, não há nada que balance todo aquele enquadramento, mas vale muito a pena para quem entende que viajar é também aprender. Chegámos à estação de Jaipur já era noite, estávamos cansados e desgastados mas ainda conseguimos fintar uns 20 condutores de tuk tuk, que apareciam de todo o lado dispostos a levar-nos dali. Os próximos dias prometiam ser generosos em experiências e mais fáceis que os de Delhi. E foram. 


Uma das coisas boas de uma viagem que se estende um pouco mais no tempo, é a sensação de que pertencemos ao lugar, de que estabelecemos algumas rotinas que nos fazem sentir que fazemos parte daquilo tudo. Em Jaipur sentimo-nos pela primeira vez menos turistas. O senhor da fruta perto de nossa casa dizia que esperava por nós todas as manhãs, as pessoas que trabalhavam no restaurante a que íamos com frequência já se riam com os nossos pedidos e os "nossos" condutores de tuk-tuk tornaram-se amigos e enviam semanalmente mensagens de whats app a perguntar: "How is Sebastien?".

A cidade cor-de-rosa ficou-nos no coração, por isso vou dedicar-lhe mais posts, em curtos espaços de tempo.
No próximo conto-vos as rotinas, a aventura de comer e alimentar uma criança, os animais e os monumentos que vimos e que não vimos. 

Encontramo-nos a bordo do tuk tuk do Ali.