"Big Pineapple"

26.2.18


Aterrámos em solo indiano perto da 13.00 da tarde, com quase 24 horas de viagem em cima e uma missão: encontrar a pessoa que nos esperava no aeroporto e perguntar-lhe a password... Isso, leram bem.
Marcámos alojamento em Delhi ainda em Portugal e correu tão bem quanto possível. Havia lugares piores para ficarmos? Certamente. E melhores? Com toda a certeza. 
Quando marcámos disseram-nos que podiam enviar alguém para nos ir buscar ao aeroporto. Serviço que, a antever cansaço e com uma criança nos braços, nos pareceu lindamente. Recebemos então um e-mail de volta a dizer que estaria alguém com o nosso nome, que tínhamos de nos dirigir à pessoa e perguntar a palavra-passe. "Big Pineapple". 
Estão a imaginar? Eu revi este filme na minha cabeça vezes sem conta e não consigo, ainda hoje, deixar de rir. 

Ora sejam muito bem-vindos a Delhi!

Já aprendi a não tirar grandes ilações quando chego a uma cidade que me tira da zona de conforto depois de uma viagem longa. As minhas primeiras impressões nunca são as correctas e o cansaço tolda-me o cérebro. Voltou a acontecer em Delhi.
Ficámos hospedados em Paharganj, que está na fronteira entre um bairro e um mercado a céu aberto.  Na rua, os saris coloridos misturam-se com lixo pelo chão, com tuk-tuks em todas as direcções, com vacas sagradas, restaurantes de rua, bancas de fruta, ...os cheiros são tudo o que imaginam e mais um bocadinho e as construções são tão pitorescas quanto macarrónicas e todas têm pinta de que se a terra tremer 0, 25 na escala de Richter, vai tudo ao chão. 
O carro parou para nos deixar no meio da rua principal e o senhor que nos foi buscar - entre uma cuspidela e mais uma embalagem de tabaco de mascar - indicou-nos que tínhamos de seguir "por ali". E "por ali" entenda-se uma rua interior, com a largura de um corredor, escura, fios eléctricos ao estilo grinaldas e uma casa-de-banho pública pelo meio, que mais não era do que uma cova na parede. Estivemos segundos a digerir. O Sebastião acusava cansaço, estava apreensivo e confuso e uma coisa era certa: precisávamos de um quarto, um banho e alguma zona de conforto. Fomos. 


Já diz e muito bem a sabedoria popular: primeiro estranha-se, depois entranha-se. 
Decidimos, mais tarde, sair e explorar a zona e a cidade [e acabámos por ficar no mesmo sítio uns dias]. 
Por mais que tente descrever o que é Delhi, nunca lhe seria fiel. É um embate grande, uma chapada de realidade, murros sucessivos no estômago, mas não é tudo em mau, há ali uma "magia" qualquer. Se calhar é por isso que dizem que a Índia pode mudar as pessoas. A mim fez-me sentir pequenina, colocou-me no lugar e com a visão em perspectiva. Acho que um dia mais tarde vou conseguir colocar em palavras o que vi e senti, mas por agora, sinto-me a meio de uma digestão lenta.
Para o Sebastião não foi fácil. Para além da sensação de sair da zona de conforto, do caos urbano, da poluição, do barulho, da confusão e do excesso em tudo, fosse qual fosse o lugar por onde andávamos, queriam tocar-lhe, brincar com ele, tirar-lhe fotografias e pegar-lhe ao colo.  Nos primeiros dias chorava para entrar num tuk-tuk, estava aborrecido por ter "rédea curta", tinha saudades de casa e queria comer coisas impossíveis de encontrar ali. Não foi fácil gerir tanta emoção - as dele e as nossas - e encontrar um equilíbrio. Tudo isto estava a criar uma espiral de ansiedade, apreensão e nervosismo que nos afectava a nós e depois a ele. Estávamos longe, com um mês de Índia pela frente e o começo estava a ser duro. 
Decidimos baralhar e dar de novo. Aceitámos, descansámos e demos a volta ao texto e em dois dias, estávamos ambientados a Delhi, a gostar do "bairro" que escolhemos e a aproveitar o rooftop sobre a cidade que o hostel nos tinha para oferecer. 


Mas ir com uma criança requer ajustes de programa. Sim, fomos à Índia e não vimos o Taj Mahal , nem um sem número de fortes, palácios e museus. Optámos por viver as cidades, andar nos mercados, frequentar os parques infantis e deambular pela rua. 
Foi isso que fizemos em Delhi, intervalando horas de caos urbano e de multidões por metro quadrado, com idas ao parque; manhãs a segurar o Sebastião junto às pernas com tardes a deixá-lo correr. Este para mim foi o segredo do sucesso. 
Neste equilíbrio, em Delhi, foi fundamental os Lodhi Gardens, um paraíso na cidade onde o simples facto de respirar é uma tarefa que se faz melhor. O parque tem extensos relvados, patos e esquilos, templos, parque infantil e circuitos de manutenção. Aqui há quem venha para fazer um piquenique, namorar, brincar, jogar badminton - em saris, imaginam? é só lindo de ver - tirar fotografias, fazer exercício. É óptimo para passar umas horas longe do turbilhão, relaxar os músculos e alinhar as ideias.
Para quem me pergunta: "Então e a comida?". É estupidamente picante e condimentada e eles não sabem o que é o contrário. São capazes de jurar a pés juntos que o prato é "no spicy" e assim que se prova parece que se fica a arder da cabeça aos pés. Nem uma  pizza Marguerita escapa! Mas a fruta é óptima, os legumes idem, os gelados e os iogurtes do melhor, há frutos secos, Naan e Chapati em todo o lado e bolachas também. Não é o ideal? Não, mas também não é o fim do Mundo. 


Delhi foi a nossa porta de entrada na Índia, um baptismo que não nos vencendo tornou-nos realmente mais fortes. Dali, tínhamos a primeira viagem de comboio. Seriam apenas 5 horas, mas não sabíamos quantas de espera, nem como iria ele (e nós), reagir a um novo desafio.

Encontramo-nos na Estação de Old Delhi para o próximo post?



Índia, duas mochilas e um bebé

15.2.18

Viajar é uma questão de decisão. Viajar para a Índia, arriscaria dizer que é um misto de decisão, perfil e mentalidade. Viajar para a Índia com uma criança, está para mim ao nível de ter filhos: se pensarmos muito, nunca é a altura certa. Agora vamos cozinhar isto tudo.

Quando comunicámos que íamos fazer uma viagem de um mês para a Índia e levávamos o Sebastião (2 anos e 8 meses), as opiniões, salvo raras excepções,  dividiram-se entre: "vocês são malucos" e um silêncio ensurdecedor. Meses antes, já havíamos nós parado para pensar e repensar no assunto e decidido deixar de o fazer. Com a idade dele, o melhor lugar para estar, era onde nós estávamos, independentemente de onde isso fosse geograficamente. 
De regresso, digo-vos: levá-lo foi a melhor decisão.

Se foi fácil? Não. Mas o próprio destino já não é fácil só por si.
Ele deu-se bem? Sim,  mas não foi de caras. Nos primeiros dois dias não estava ambientado.
Correu tudo bem? Tudo óptimo. Teve uma conjuntivite, que foi curada com recurso a Ayurveda e água do Mar Arábico. Mas, fica a nota: na Índia também há crianças, médicos, hospitais e farmácias.



Vou recuar agora ao antes da viagem. 
Odeio livros de instruções, não aprendo nada via tutoriais de Internet e falta-me a paciência para planear em demasia. Felizmente, tenho ao meu lado alguém que tem um bocadinho disto tudo, por isso, a viagem foi planeada q.b. Sabíamos que ir com o Sebastião tinha como contrapartida organizar minimamente um roteiro, mas também sabíamos que a Índia é imprevisível, que uma criança consegue ser o dobro e que não queríamos ir sem espaço para o improviso. Por isso, planeámos meio e deixámos o outro meio para decidir no momento. Foi aposta ganha.

Levámos literalmente, duas mochilas e um bebé - uma para nós e outra para ele - roupa pelo mínimo e um conjunto de "imprescindíveis-para-viagens-que-nunca-mais-acabam" e "horas-de-espera-intermináveis". O que para nós se traduziu em música, livros e blocos para desenhar e pintar, e para ele: 2 carros, 2 animais, um livro ilustrado, plasticina, um caderno de folhas lisas e uma caixa de lápis - os brinquedos que iria usar durante um mês. Posso dizer-vos que serviram lindamente, nos aviões e nos comboios entreteve-se com outras coisas como abrir e fechar janelas e foi fazendo amigos e inventando brincadeiras pelo caminho.

Antes de embarcarmos a bordo de dois voos, 11 horas de viagem, uma escala de 9 e de aterrarmos em Delhi e para quem está na indecisão de levar crianças ou não, o que posso dizer é para procurarem a resposta em vós. O que senti com o Sebastião foi que ele absorvia muito através de nós: se estávamos inquietos ele ficava inquieto, se estávamos tranquilos ele ficava em paz. Tão simples quanto isto. Acredito que o temperamento e a personalidade da criança também deve ser equacionado, mas cada pai e mãe saberá analisar melhor do que ninguém.

Na Índia é tudo em muito: muita gente, muito picante, muito doce, muita cor, muito barulho, muita poluição, muitas buzinas, muita simpatia, muita pobreza, muita riqueza, muita beleza...É um país de excessos e onde se consegue ir do "amo" ao "detesto" em menos de uma hora. É um país com o qual se bate de frente, que desafia, que coloca à prova. Se não conseguem desligar da confusão, do barulho, do que está sujo, do que tem lixo, do meter as mãos no chão e não tarda na boca...pode ser penoso. Mas se conseguirem ver para além disso, relativizarem e deixarem de querer controlar o que não é controlável, é uma experiência e tanto. Para adultos e para crianças também.



No próximo post, vamos a Delhi.
Até lá.

Como entreter um bebé numa viagem de avião?

5.1.18

* fotografia tirada na Casa Nheko no âmbito do Organii Eco Market

Querem saber a resposta? Também eu.
Vamos começar 2018 com uma grande aventura, uma viagem grande, para um lugar especial, mas nem sempre fácil e totalmente imprevisível. Quanto a isto, tudo certo.
Vai ser uma viagem seguramente pontuada por grandes desafios e com os quais lidaremos a seu tempo [para isto também estamos preparados tanto quanto é possível]. 
Contudo, quem já programou, ou tentou programar, uma viagem com uma criança pequena ou um bebé, sabe que entre milhões de questões há duas que - pelo menos a mim - me andam a moer as ideias: 

Como é que eu vou conseguir que ele fique sentado ou entretido durante a viagem de avião?
Que brinquedos levar para ele ter com o que brincar quando quiser e onde quiser?

Vamos em modo backpackers, por isso, o espaço é pouco e as escolhas têm de ser pensadas.
Fiz então um kit, de "essenciais" para uma viagem de avião e não só, composto por:
- 1 livro de imagens, que permite contar histórias, números, fazer jogos, etc;
- um pequeno caderno de folhas em branco para desenhar;
- lapís de cor e pastel;
- dois carrinhos;
- 2 bonecos;
- 2 animais;
- 2 fantoches de dedos;



Que vos parece?
O que acrescentavam ou retiravam?
Alguém já preparou um kit infalível?

Contem-me tudo!