Baby Boom

20.8.18

Fomos ao Boom e levámos o Sebastião, mas desengane-se quem achar que é uma coisa fora do comum. Felizmente, o Festival estava bem recheado de crianças das mais variadas idades.
Ainda assim, durante os dias em que estivemos em Idanha-a-Nova e nos que se seguiram, recebi bastantes mensagens, na sua maioria de mães, a perguntar como tinha sido, se ele tinha gostado e como eram as condições. Este post tenta responder a essas questões.


O meu testemunho é única e exclusivamente baseado na nossa experiência.
Começo por a idade. O Sebastião está com três anos, para mim a idade a partir da qual  tira proveito de uma experiência como o Boom. Na edição anterior – 2016 – não foi porque achei que não era a altura.
Contudo, desde 2016, altura em que vi como era o espaço dedicado aos mais pequenos – o Young Dragons -, que soube que ele, na altura certa, se iria encaixar bem e divertir-se. E foi o que aconteceu.
Entre brincadeiras em casas-de-árvore, passando por workshops vários – barro, pintura, capoeira, música, … -, banhos de barragem e dormir numa tenda, tudo contribuiu para uma experiência positiva e que muito beneficiou ainda com as amizades travadas, a disponibilidade para a diferença, a capacidade de falar a “língua da brincadeira” quando a oralidade era diferente e o afastamento das tecnologias por uma semana.


E o calor? E o pó? Perguntam vocês. 
Contra as temperaturas altas existem sombras – muitos dos espaços pensados para crianças são generosos em árvores de copas grandes. Já para o pó, não há alternativa, mas no nosso caso, não foi nada que não se aguentasse.

Algumas de vocês perguntaram-me se havia pessoas para cuidar das crianças. Não, não existem. O espaço tem uma equipa que dinamiza os workshops, que ajuda na gestão de tudo, mas as crianças ficam à responsabilidade dos pais, o que quer dizer, necessariamente, um Festival diferente, mas que não tem de ser pior.

Porque o levámos?
Porque sabíamos que se ia divertir, que ia gostar e, fundamentalmente, porque acreditamos que dar-lhe experiências variadas, tirá-lo da zona de conforto e expô-lo à diferença contribui para a sua educação.

Não sei se respondi a todas as dúvidas, mas se ficou alguma coisa por esclarecer, deixem nos comentários que respondo a tudo.

Até já,

Update

16.7.18





Fazia possivelmente muito mais sentido publicar aqui o texto que se seguiria da nossa viagem, e sei bem que os posts sobre a mesma não tiveram nem têm a cadência desejada, mas não quis forçar a escrita e por isso ainda estão por sair. Não é que este texto não esteja de alguma forma relacionado com a viagem, porque está, mas de uma forma colateral.

Este texto é também uma forma de resposta a algumas perguntas que me têm feito sobre a menor quantidade de peças que tenho feito e mostrado. Para responder vou recuar um pouco até ao final de 2017, o fim de um ano muito cansativo, em que lidei com muitos projectos, encomendas de dimensões grandes e dead lines constantes. Cheguei ao fim cansada, em demasia e já rumei à Índia com a vontade de atribuir real significado à expressão “slow”. Num mês de viagem onde as distâncias são grandes, as viagens de comboio são intermináveis e as escalas têm duas mãos cheias de horas, quer se queira quer não, o tempo abranda e dá-nos tempo para olhar para dentro.  

Percebi nessa análise que me estava a desviar do real propósito com que tinha iniciado o projecto, que estava aborrecida porque já não me surpreendia e que a minha criatividade estava estagnada porque não tinha tempo para a alimentar. No meio de encomendas, emails, updates de redes sociais, styling de imagens, estava embrenhada numa rede e nem me tinha dado conta. Senti a real necessidade de parar e de arranjar mecanismos que me fizessem lembrar disso mesmo com alguma regularidade – porque para mim seria fácil entrar no mesmo círculo sem dar por nada – e perder  identidade. 

Decidi dedicar o ano que começava a encontrar-me, a mim e ao projecto e pouco tempo depois descobria que estava grávida do meu segundo filho. Tudo parecia estar em sintonia. Na perspectiva do lado pessoal isso significa dedicar mais tempo à família e a fazer outras coisas que tanto gosto e que me alimentam a criatividade também. Na perspectiva do projecto, a aceitar menos trabalho, a experimentar coisa novas, a ter tempo para errar e fazer de novo, a pintar, desenhar e exercitar a imaginação, a fazer pequenas formações em outras áreas inspiradoras e, com tempo, dar o rumo e a identidade que senti que no final do ano se podia estar a perder.

Este projecto é uma extensão de mim e quero muito que represente isso mesmo, quero fazer peças simples mas bonitas, verdadeiras e perfeitamente imperfeitas, sofisticadas mas "cruas" ao mesmo tempo. Este é o meu processo evolutivo e acredito que o que estou a semear agora, me dará frutos mais para a frente. Eu pelo menos acredito nisso.

Espero que fiquem desse lado.

Ps: Nas imagens está a minha última criação. E sabem o que me deixa mais satisfeita com o resultado? É o facto de perceber que se eu fosse uma peça têxtil, podia muito bem ser assim. Está disponível na loja online.


Delhi - Jaipur : lições de vida em 5 horas

26.4.18

O nosso comboio partia da estação de Old Delhi e os bilhetes tinham sido comprados ainda em Portugal via Internet, através de um site confuso em que apareciam listas de comboios que não tinham fim, horários que nos pareciam de outro planeta e um sistema de quotas com o qual não estávamos familiarizados. Por curiosidade, sabem quantas pessoas viajam em média, por dia, no sistema de comboios indianos: 23 milhões! São 2 x Portugal e mais um bocadinho.  Por tudo isto e por ser a nossa primeira viagem de comboio, íamos às escuras.



Decidimos chegar um pouco mais cedo para "apalpar terreno" e assim que o tuk tuk nos deixou em frente à estação sentimo-nos pequeninos. Estava calor, havia bastante gente à entrada, algumas pessoas a deambular de um lado para o outro da estação e nós éramos os únicos não-locais. A dimensão da estação era grande, não fazíamos ideia se devíamos ir mais para a frente ou mais para trás, onde seriam as carruagens dos nossos bilhetes, se haviam sequer bilhetes e como funcionava tudo. Algum tempo depois, juntaram-se a nós mais dois turistas, também eles a caminho de Jaipur e posteriormente, o comboio que partiria dali andou alguns metros para a frente para se colocar na posição de saída. Foi o caos. Do nada, começaram a vir pessoas de todos os lados, a empurrar-se e a trepar por cima umas das outras, para garantir o seu lugar no comboio. Os mesmos indianos que não buzinavam nas estradas, que se organizavam no caos do trânsito sem ripostar, gritavam uns com os outros, puxavam-se e empurravam-se como se da entrada naquele comboio dependesse a própria vida.
Eu fiquei a ver aquilo tudo petrificada, sem querer acreditar muito bem no que via e sem saber como faria para entrar com o Sebastião. Descobrimos um pouco mais tarde que os nossos bilhetes eram para outra carruagem, bem mais calma, onde viajámos com outra família indiana e conversámos sobre o país, a pobreza, a vida, a ligação de Portugal à Índia e as diferenças entre os dois países.


A viagem de comboio de Delhi para Jaipur foi também a mais impressionante que fizemos. O comboio andava devagar porque ia abrindo caminho por entre pequenos aglomerados onde viviam pessoas nas mais incríveis condições de pobreza, lado a lado com as linhas de comboio e lixeiras a céu aberto. É quase impossível fazer outra coisa nesta viagem que não seja olhar e estar sucessivamente a levar com o embate daquilo tudo. São horas duras mas que se configuram numa lição de vida. Não há paisagens bonitas, não há o verde do Sul, não há nada que balance todo aquele enquadramento, mas vale muito a pena para quem entende que viajar é também aprender. Chegámos à estação de Jaipur já era noite, estávamos cansados e desgastados mas ainda conseguimos fintar uns 20 condutores de tuk tuk, que apareciam de todo o lado dispostos a levar-nos dali. Os próximos dias prometiam ser generosos em experiências e mais fáceis que os de Delhi. E foram. 


Uma das coisas boas de uma viagem que se estende um pouco mais no tempo, é a sensação de que pertencemos ao lugar, de que estabelecemos algumas rotinas que nos fazem sentir que fazemos parte daquilo tudo. Em Jaipur sentimo-nos pela primeira vez menos turistas. O senhor da fruta perto de nossa casa dizia que esperava por nós todas as manhãs, as pessoas que trabalhavam no restaurante a que íamos com frequência já se riam com os nossos pedidos e os "nossos" condutores de tuk-tuk tornaram-se amigos e enviam semanalmente mensagens de whats app a perguntar: "How is Sebastien?".

A cidade cor-de-rosa ficou-nos no coração, por isso vou dedicar-lhe mais posts, em curtos espaços de tempo.
No próximo conto-vos as rotinas, a aventura de comer e alimentar uma criança, os animais e os monumentos que vimos e que não vimos. 

Encontramo-nos a bordo do tuk tuk do Ali. 





"Big Pineapple"

26.2.18


Aterrámos em solo indiano perto da 13.00 da tarde, com quase 24 horas de viagem em cima e uma missão: encontrar a pessoa que nos esperava no aeroporto e perguntar-lhe a password... Isso, leram bem.
Marcámos alojamento em Delhi ainda em Portugal e correu tão bem quanto possível. Havia lugares piores para ficarmos? Certamente. E melhores? Com toda a certeza. 
Quando marcámos disseram-nos que podiam enviar alguém para nos ir buscar ao aeroporto. Serviço que, a antever cansaço e com uma criança nos braços, nos pareceu lindamente. Recebemos então um e-mail de volta a dizer que estaria alguém com o nosso nome, que tínhamos de nos dirigir à pessoa e perguntar a palavra-passe. "Big Pineapple". 
Estão a imaginar? Eu revi este filme na minha cabeça vezes sem conta e não consigo, ainda hoje, deixar de rir. 

Ora sejam muito bem-vindos a Delhi!

Já aprendi a não tirar grandes ilações quando chego a uma cidade que me tira da zona de conforto depois de uma viagem longa. As minhas primeiras impressões nunca são as correctas e o cansaço tolda-me o cérebro. Voltou a acontecer em Delhi.
Ficámos hospedados em Paharganj, que está na fronteira entre um bairro e um mercado a céu aberto.  Na rua, os saris coloridos misturam-se com lixo pelo chão, com tuk-tuks em todas as direcções, com vacas sagradas, restaurantes de rua, bancas de fruta, ...os cheiros são tudo o que imaginam e mais um bocadinho e as construções são tão pitorescas quanto macarrónicas e todas têm pinta de que se a terra tremer 0, 25 na escala de Richter, vai tudo ao chão. 
O carro parou para nos deixar no meio da rua principal e o senhor que nos foi buscar - entre uma cuspidela e mais uma embalagem de tabaco de mascar - indicou-nos que tínhamos de seguir "por ali". E "por ali" entenda-se uma rua interior, com a largura de um corredor, escura, fios eléctricos ao estilo grinaldas e uma casa-de-banho pública pelo meio, que mais não era do que uma cova na parede. Estivemos segundos a digerir. O Sebastião acusava cansaço, estava apreensivo e confuso e uma coisa era certa: precisávamos de um quarto, um banho e alguma zona de conforto. Fomos. 


Já diz e muito bem a sabedoria popular: primeiro estranha-se, depois entranha-se. 
Decidimos, mais tarde, sair e explorar a zona e a cidade [e acabámos por ficar no mesmo sítio uns dias]. 
Por mais que tente descrever o que é Delhi, nunca lhe seria fiel. É um embate grande, uma chapada de realidade, murros sucessivos no estômago, mas não é tudo em mau, há ali uma "magia" qualquer. Se calhar é por isso que dizem que a Índia pode mudar as pessoas. A mim fez-me sentir pequenina, colocou-me no lugar e com a visão em perspectiva. Acho que um dia mais tarde vou conseguir colocar em palavras o que vi e senti, mas por agora, sinto-me a meio de uma digestão lenta.
Para o Sebastião não foi fácil. Para além da sensação de sair da zona de conforto, do caos urbano, da poluição, do barulho, da confusão e do excesso em tudo, fosse qual fosse o lugar por onde andávamos, queriam tocar-lhe, brincar com ele, tirar-lhe fotografias e pegar-lhe ao colo.  Nos primeiros dias chorava para entrar num tuk-tuk, estava aborrecido por ter "rédea curta", tinha saudades de casa e queria comer coisas impossíveis de encontrar ali. Não foi fácil gerir tanta emoção - as dele e as nossas - e encontrar um equilíbrio. Tudo isto estava a criar uma espiral de ansiedade, apreensão e nervosismo que nos afectava a nós e depois a ele. Estávamos longe, com um mês de Índia pela frente e o começo estava a ser duro. 
Decidimos baralhar e dar de novo. Aceitámos, descansámos e demos a volta ao texto e em dois dias, estávamos ambientados a Delhi, a gostar do "bairro" que escolhemos e a aproveitar o rooftop sobre a cidade que o hostel nos tinha para oferecer. 


Mas ir com uma criança requer ajustes de programa. Sim, fomos à Índia e não vimos o Taj Mahal , nem um sem número de fortes, palácios e museus. Optámos por viver as cidades, andar nos mercados, frequentar os parques infantis e deambular pela rua. 
Foi isso que fizemos em Delhi, intervalando horas de caos urbano e de multidões por metro quadrado, com idas ao parque; manhãs a segurar o Sebastião junto às pernas com tardes a deixá-lo correr. Este para mim foi o segredo do sucesso. 
Neste equilíbrio, em Delhi, foi fundamental os Lodhi Gardens, um paraíso na cidade onde o simples facto de respirar é uma tarefa que se faz melhor. O parque tem extensos relvados, patos e esquilos, templos, parque infantil e circuitos de manutenção. Aqui há quem venha para fazer um piquenique, namorar, brincar, jogar badminton - em saris, imaginam? é só lindo de ver - tirar fotografias, fazer exercício. É óptimo para passar umas horas longe do turbilhão, relaxar os músculos e alinhar as ideias.
Para quem me pergunta: "Então e a comida?". É estupidamente picante e condimentada e eles não sabem o que é o contrário. São capazes de jurar a pés juntos que o prato é "no spicy" e assim que se prova parece que se fica a arder da cabeça aos pés. Nem uma  pizza Marguerita escapa! Mas a fruta é óptima, os legumes idem, os gelados e os iogurtes do melhor, há frutos secos, Naan e Chapati em todo o lado e bolachas também. Não é o ideal? Não, mas também não é o fim do Mundo. 


Delhi foi a nossa porta de entrada na Índia, um baptismo que não nos vencendo tornou-nos realmente mais fortes. Dali, tínhamos a primeira viagem de comboio. Seriam apenas 5 horas, mas não sabíamos quantas de espera, nem como iria ele (e nós), reagir a um novo desafio.

Encontramo-nos na Estação de Old Delhi para o próximo post?